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quinta-feira, novembro 16, 2006

Pai, o cão desmaiou...

Telefonema de uma filha para seu pai em final de férias de fim-de-semana.
- Olá pai. Sou eu, a Fátima.
- Fatinha! Ia partir agora. Está tudo bem?
- O cão desmaiou.
- O cão o quê?...
- Desmaiou. Está aqui deitado dentro da tua cama.
- Estás doida? Tira-o já de lá! O que é que ele tem? Comeu alguma coisa estragada?
- Acho que não. Acho que foi de Ihe ter limpo o focinho com amoníaco..
- Hã? Para quê?
- Para lhe tirar a tinta branca do focinho. Na embalagem dizia para não se cheirar...
- Ei, calma lá! Mas que história vem a ser essa?? Qual tinta???
- A tinta branca do spray, para pintar o carro.
- O Toyota?? Riscaste-me o carro a brincar na garagem? Maria de Fátima diz-me a verdade.
- O que é que tu queres? A chave de parafusos escapou-se-me das mãos.
- Mas para que fostes tu brincar com uma chave de parafusos para o pé do carro??
- Não estava a brincar pai. Tem dó, estava a tentar arranjar-te o farol...
- Maria de Fátima - Tu partiste-me o farol do carro?
- ...o farol, o pára-choques...
- O quê??? O que é que vocês andaram a fazer na minha ausência? Andaram à pedrada ao meu carro, ou quê?!
- À pedrada não andámos, mas andámos aos pontapés...
- Ai mau Maria, mau Maria, mau Maria...
- A ideia foi do João, pai.. .ele é que disse para dar pontapés na chapa que ela acabava por se endireitar.
- Não, isto não está a acontecer...
- Espera pai, vou passar ao João...
(- João, atura-o tu agora um bocadinho)
- Está? João? João. Tu que és mais crescido e responsável ouve bem o que o teu paizinho te vai perguntar - o que está a acontecer, exactamente?
- O cão desmaiou...
- Porra! Eu já sei que o cão desmaiou. Eu não quero saber do cão para nada. Eu quero saber o que aconteceu ao meu carro, e quero saber já!
- O teu carro despistou-se e foi contra uma árvore.
- Quê??? Despistou-se? Contra uma árvore?? Mas tu ainda estás a tirar a carta e fostes guiar o meu carro sem a minha autorização???
- Eu? Eu não, a Fatinha é que ia a guiar.
- Chama JÁ a tua irmã ao telefone. JÁ!
- Ela está ali a falar com o cão e diz que não pode vir...
- JÁÁÁ!
(- Fátima, olha a fera ao telefone)
- Está pai, o que queres agora??
- #! &$!! Para ti Maria de Fátima.. .Quero saber já, neste momento e neste instante, que história é essa do desastre?
- Bem, se começas a ser malcriado comigo não te digo nada...
- Maria de Fátima!? Alô? Alô?... Mariazinha de Fátimazinha, Almeidazinha não me deixes a mostardazinha chegar-me ao narizinho... é um conselhozinho de quem te quer bem...
- Ah! Com esses inhos todos já gosto! Vês como as coisas tratadas com ternura e amor pelo próximo resultam melhor? Então é assim, alguém tinha de ir buscar o João à esquadra - como tu não estavas cá - fui eu no teu carro. À vinda da esquadra...
- Esquadra??? Da polícia???
- Sim, conheces outra?!!!
- O-que-é-que-o-teu-irmão-fez, Maria de Fátima
- Não-sei, vou-chamá-lo-pai-Almeida
(- João, é a tua vez!)
- João, eu não me vou pôr com rodeios. O que é que fizestes?
- Soquei o primeiro transeunte que se cruzou comigo, ali na rua Augusta...
- ..gaaaa....
- A sério! Tu farias o mesmo na minha situação!
- ?gggg?
- Foi assim: estava a passear calmamente quando um velhinho tropeçou e caiu, ali mesmo ao meu lado. Eu não fiz mais nada senão chamar os tipos da ambulância (é ambulantes que se diz?) quando chegaram acusaram-me de os ter incomodado sem razão, pois uma quedazinha daquelas não justificava a sua vinda. Eu irritei-me, tu sabes como eu odeio aqueles que desprezam a terceira idade, e esbofeteei o velhinho dizendo-lhes em alto e bom som «-Então e isto??? Já justifica a vossa vinda? Seus...» Coitado. Tinha acabado de se conseguir levantar e lá voou direitinho ao chão de novo. Então eles pegaram no velho e levaram-no para o hospital. Minutos depois apareceu a policia. Eu contei-lhes toda a verdade e aqueles gajos não me prenderam nem nada!! Disseram que estaladas e coisas assim estavam sempre a acontecer e que não valia a pena terem-lhes chamado só por causa disso. Eu irritei-me, tu sabes como eu odeio aqueles que desprezam a terceira idade, e preguei um bom soco no primeiro transeunte que me surgiu à frente, dizendo em alto e bom som «Então e isto??? Já justifica a vossa vinda? Seus...» Para grande pena minha, o desgraçado que apanhou o soco era outro velhinho. Tu sabes como eu respeito a terceira idade. A Bófia então pegou em mim e levou-me para a esquadra, finalmente.
No dia seguinte a Fátinha veio buscar-me no teu carro... foi aí que ela se espetou na árvore aí a cerca de quinze quilómetros por hora.
- Ufff! Ao menos isso. Vinham devagarinho então.
- Devagarinho? Não! Vínhamos a mais de cem quando nos despistámos.
- Então mas acabaste de dizer que chocaram a quinze...
- Ai a Fatinha não te disse??? Entrámos aí a uns 190 dentro do parque, em os arbustos, banquinhos e caixotes de lixo baixámos para 150, depois foi a fonte do repuxo e finalmente o amontoado de velhinhos que costumam, isto é costumavam, jogar às cartas nas mesinhas do parque...foi um final suave... E foi uma grande sorte pai, para nós e para o teu carro.
Estás a ouvir pai? Está lá?? Alô???...
- Ei mana, telefona agora tu para a mãe.
- O que é que eu digo, a mesma história?...
- Ah! Pode ser, mas ao menos troca os personagens.. sei lá, surpreende-me!

- Olá mãe. Sou eu, a Fátima!

- Fátinha, minha filha, está tudo bem?

- O pai desmaiou...


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